quinta-feira, 15 de março de 2012

"and I hope he feels that way too"


"You really don't think about getting older. First of all, you're aging together and when you see a person constantly you don't notice big changes. Like you don't notice, oh you're getting a little wrinkle here and tomorrow you say oh it's a little deeper. No, those are things that just happen. You don't pay attention to those things. You don't realize it.. really . You don't realize that you're.. I mean I'm not thinking everyday, oh my husbands 83 years old he's gonna be 84. Oh my goodness, I'm married to an old man. And I hope he feels that way too." 
Angie Terranova, Staten Island, New York.


A foto e o depoimento fazem parte do projeto "Love ever after", da fotógrafa norte-americana Lauren Fleishman. Depois da morte do avô, ela encontrou cartas que ele escrevia para a esposa, avó de Lauren, numa caixa que ficava perto da cama do casal. Eram cartas do amor de uma vida inteira. Os dois ficaram juntos mais de 50 anos e a neta fotógrafa, inspirada pela correspondência, decidiu registrar casais de Nova York que, mesmo com mais de 50 anos de união [ou, provável, justamente por isso], vivem cada dia de relacionamento com a mesma chama que os impulsionou desde a primeira vez. Fotograficamente falando, as fotos não chamam atenção pelo enquadramento mais criativo ou pela melhor luz. Mas pra quê? São fotos simples, que encantam pelo momento, para olhar com o coração. [Numa fração de segundos, lembro dos meus avós e vejo adiante: faltam 43 anos para entrarmos nesse clube, eu e ele. Assim seja.]



terça-feira, 13 de março de 2012

saudade mata a gente, menino

"Na solidão, na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.
Que saudade."
[Mário Quintana]


Uma noite ele me achou no meio de um monte de gente e pulou no meu colo. Veio para casa de moto, um acontecimento sem precedentes e completamente surreal. Me ensinou uma série de coisas, inclusive que gato fala. sim, o Paulo Alfredo, meu Fefo, falava. Ele se comunicava de um jeito que eu nunca vi nenhum outro gato fazer. Cada movimento de corpo e cada tom de miado significavam uma determinada coisa exata. E tinha jogos comigo, coisas que só ele fazia, e normalmente eu sempre caía na chantagem emocional dele – e achando lindo.

Foi o gato mais belo que eu já vi. Um vira-lata legítimo, apesar dos ares de nobreza. Olhos verdíssimos, pelos longos, rabo felpudo, um cinza incomum, o narizinho rosa bem desenhado. Sempre digo que foi ele o gato que me ensinou a gostar de gatos.

Hoje completam-se dois anos que ele partiu. Não há um dia sequer em que eu deixe de pensar nele, não há um dia em que eu não o ame e não deseje que tudo fosse diferente. Não há um dia em que eu não morra de saudade.

Saudade mata a gente, menino.

quinta-feira, 8 de março de 2012

"to die by your side is such a heavenly way to die..."

Foram oito canções e seis fotos. Pouco para quem pagou R$ 140 num ingresso, sem direito à meia-entrada, e principalmente para a expectativa de tantos anos. A pontualidade britânica não deu folga e, ossos do ofício, perdi metade do espetáculo. Foram apenas oito canções e seis fotos [estas, embargadas pela emoção e pelos iguais que, como eu, buscavam uma visão mais limpa], mas ainda assim o suficiente para guardar na memória para sempre: casa cheia, comunhão de vozes, e ele lá, em cima do palco, se entregando à multidão em forma de música, peito aberto, camisas lançadas à plateia.

O pulmão explodiu na garganta quando dos primeiros acordes da canção que há tantos anos integra a trilha sonora da minha vida. Os versos saíram sem preocupação com afinação: "to die by your side is such a heavenly way to die..." Ao lado, alguém por quem as palavras fazem sentido. Alguém que estava ali só para me acompanhar nesse momento. Uma, duas, três, um rio de lágrimas. Alma lavada.

Obrigada, Morrissey, por existir.

morrissey | bh


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terça-feira, 6 de março de 2012

"é uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim"

Muito antes que meu cérebro pudesse fazer certas conexões baseadas no mistério dos astros, no perfil dos signos, eu entendi o que é um pisciano clássico. Aquele olhar emocional demais, um choro até em momento de alegria e o jeito meio Pollyana de lidar com a vida que parecem ser obrigatórios aos que nascem entre 20 de fevereiro e 20 de março. Não foi Susan Milller quem me explicou, nem mestre Quiroga. Aprendi essa coisa da emoção à flor da pele com um sujeito nascido num dia 6 de março e que ostentava um bigode que podia muito bem compor um homem severo e duro, mas nele simplesmente ficava engraçado.

Era um sujeito que não podia ver um foco de discussão na família que logo se amuava e ficava marejado pelos cantos. Enquanto eu, essa pessoa ariana impulsiva, segundo dizem os astros, dava uma boiada para não sair da briga. Muito emocional – e isso me irritaria em qualquer pessoa. Mas não nele, aquele sujeito que para cantar um simples parabéns com bolo num 13 de abril se vestia com o terno mais bonito e penteava com esmero o bigodão engraçado.

Um sujeito que me contava histórias fantásticas, com um pé na realidade e outro na imaginação. Inventava personagens – ou será que eles existiam mesmo? – e preparava gemada para a criançada toda, porque acreditava que isso faria bem à saúde. O único que sabia bater clara em neve na casa, à mão, talvez porque fosse só ele a ter paciência suficiente para isso numa época em que já existia batedeira. Tinha lá as manias dele, era em certa medida sistemático, e passava dias quebrando a cabeça para colocar para funcionar o velho Opala ou algum dos muitos relógios de sua época de relojoeiro. Amava animais e isso me veio não só na genética como no exemplo. Era, inclusive, o queridinho da minha primeira cachorra, o que me geraria ciúmes, mas era ele, então não.

Teve uma vida difícil, mas não perdeu a doçura. Talvez por causa do mistério dos astros e dessa carga esotérica que vem no pacote dos nascidos entre 20 de fevereiro e 20 de março. Ou talvez por mistério nenhum: ele era avô. Já tinha lutado demais para criar os filhos e, comigo, era pai com açúcar.

Foi num dia 6 de março seguinte ao novembro em que ele morreu que finalmente aconteceu minha colação de grau. Não foi uma escolha. Em uma semana de colações de grau de uma universidade inteira, a minha turma foi sorteada para pegar o diploma exatamente naquele dia. Não podia enxergar, mas sei que de alguma forma ele sorria com seu bigodão, dentro do seu terno cinza.

Faz uma falta imensa não poder hoje vê-lo aprumado na sua melhor roupa e de bigode penteado e dar um abraço apertado pelos anos que ele completaria hoje. Ainda me restam o velho Opala, muitos dos relógios da época de relojoeiro, um pacote de cartas, muitas fotos, essa coisa adquirida de chorar por qualquer coisa, mesmo sendo ariana. E principalmente o amor. "É uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sobre o tempo e o precipício

"O senhor não esteve lá. O senhor não escutou, 
em cada anoitecer,  a lugúmem do canto da mãe-da-lua. 
O senhor não pode estabelecer em sua idéia a 
minha tristeza quinhoã.  Até os pássaros, consoante 
os lugares,  vão sendo muito diferentes.  
Ou são os tempos, travessia da gente?"
Guimarães Rosa


É sempre num esses momentos em que batem os questionamentos e o aperto no peito que eu compro um caderno novo e tento retomar o velho hábito de por para fora, em palavras, à mão, a sensação de iminente precipício. O jornalismo me trouxe muitas coisas, mas cobrou de volta uma certa espontaneidade e a verborragia que, antes dele, encheram vários cadernos. [Antes de pegar novamente no lápis, andei de um lado para outro até quebrar a barreira do silêncio e do esmagamento emocional.]

Quem nunca desejou poder voltar no tempo? Não falo em viajar para uma época sonhada, mas não vivida, como em "Meia-noite em Paris", do Woody Allen. Nem migrar para outra fase da própria vida que a nostalgia superestimou. Eu já quis três ou cinco vezes. Quase como um fim de horário de verão. Voltar no relógio da vida uma ou duas horas. Vinte e quatro, no máximo. Um retrocesso curto em comparação com o resto do tempo que – supõe-se – tenho pela frente, mas determinante para tudo que será a partir de então. 

["Se..." Duas letras e três pontos que contêm tudo.]

Meu avô morreu numa sexta-feira de 2004. Naquele dia, eu desejei, pela primeira vez, voltar no tempo. Menos de vinte e quatro horas, para voltar ao trabalho e estar no impossível horário de visita do CTI para uma pessoa que trabalha. Numa sexta-feira de março de 2008, se houvesse o relógio tempo-vida, eu teria chegado duas horas mais cedo em casa, a tempo de evitar que meu gato morresse.  Numa segunda-feira de fevereiro de 2012, eu teria rebobinado os acontecimentos para dormir duas horas depois e não deixar escapar a vidinha que pouco antes pulsava no meu colo.

Invariavelmente, vem o berro: que Deus é esse que dizem ser onipresente, onisciente e misericordioso, mas que, de uma hora para otura, literalmente, tira tanto de nós? Deus deve ser como o relógio do tempo: não existe, mas gostaríamos que.

A vida não é justa...

O tempo, muito menos.